Todo inverno a mesma coisa: energia baixa, vontade de dormir o dia inteiro, desânimo que não tinha explicação óbvia. Ela achava que era só 'preguiça de época fria'.
Ela assistiu ao filme favorito, comeu o prato preferido, ouviu a música que sempre a emocionava. Nada. Era como observar a própria vida de longe.
Todo mundo dizia para ela voltar a pintar, que sempre tinha amado aquilo. Ninguém entendia que, na depressão, o próprio prazer de pintar tinha desaparecido junto com o resto.
A família achava normal ele estar mais quieto, comer menos, dormir mal. Ninguém pensou que pudesse ser depressão, porque 'idoso é assim mesmo'.
Ela sabia que precisava comer. Sabia até o que fazer. Simplesmente não conseguia reunir energia para ficar de pé na cozinha por vinte minutos.
Ele não chorava. Ele explodia por qualquer coisa pequena, e todo mundo achava que era só um gênio difícil. Era depressão, disfarçada de irritação.
Ele nunca chorou, nunca disse estar triste. Só ficou mais irritado, mais isolado, trabalhando mais horas do que qualquer pessoa deveria. Ninguém chamou aquilo de depressão.
Ela gravou, ouviu de volta a própria voz pedindo ajuda, e apagou. Fez isso onze vezes na mesma semana.
Ela entregava tudo no prazo, sorria nas reuniões, respondia mensagens. Chegava em casa e não conseguia nem tirar o sapato antes de deitar no chão.
Ele era o mais dedicado da equipe, sempre o último a sair. Ninguém suspeitava que ele preenchia cada hora justamente para não sobrar tempo de sentir.
Tristeza tem motivo e passa. O que muita gente descreve é outra coisa: um apagamento de vontade que não precisa de motivo nenhum para continuar.